Wesley Prado
A gente quase sempre nasce com tudo no lugar. Eu disse quase. Tem gente que nasce com um detalhezinho de nada diferente dos outros e sofre um bocado por causa disso. E não estou falando de nascer com uma perna ou braço a menos – como as vítimas da geração talidomida, na década de 70 – ou de órgãos internos que funcionem de forma lastimável. Na verdade, o detalhezinho nem precisa ser algo assim, tão na cara. Basta estar na cabeça. De quem vê e de quem o sente a incomodar.
Você se olha no espelho. O que você vê? Se nasceu com um pênis e já passou dos vinte, provavelmente verá um rosto barbado, feições duras, ombros mais largos, mais pelos no corpo. Talvez músculos mais definidos pelo tempo gasto numa academia. Se você nasceu com uma vagina e já passou dos vinte, provavelmente verá um rosto mais delicado, de sobrancelhas finas, cabelo comprido, maquiagem, corpo mais delicado e curvilíneo. Com certeza mais bem cuidado, em termos estéticos e de saúde, que o corpo do homem.
No entanto, se você nasceu homem ou mulher e está entre os que caem dentro desta sigla nada comum, LGBTTT – especialmente entre os T’s – você certamente não se reconhecerá. A incapacidade de se reconhecer no próprio corpo torna o ato de se olhar num espelho um desafio, uma afronta diária com uma porção de si mesmo que não quer ficar escondida, alheia ao mundo, porém comumente relegada a ficar trancada dentro do que a gíria batizou de armário.
E esse móvel imaginário, escuro com um útero por dentro, o lugar seguro que resta, vira condenação, traz desconforto. Uma hora, é preciso sair. Mas quando? Quando encarar os outros, aqueles a quem o espelho só devolve verdades óbvias? Para alguns é mais fácil. O incômodo, o detalhezinho, está “apenas” naquilo que lhe atiça a carne e o apaixona. O amor e desejo que se encontram na igualdade do espelho. O L e o G daquela sigla estranha lá em cima querem apenas encontrar-se num outro que não lhe seja oposto. Ao menos, não sexualmente falando.
No “meio” do caminho, o B é o guloso diante do espelho. Quer tudo e todos, sem ninguém dizendo a ele/ela o que ela/ele tem que querer. É simples: ele ama a todos, deseja a todos. Não é promiscuo per si, a despeito de toda a pecha que a indústria do entretenimento parece querer lhes impor, como tatuagem. Amar sem distinção entre sexo não é ser safado. É simplesmente uma condição de amor que demanda uma estranha liberdade, uma para a qual, assim como tantas outras, o mundo não está disposto a oferecer.
Mas o espelho está lá, esperando os T’s. Esses sim, sofrem com o reflexo, para eles sempre distorcido. O detalhezinho é como aquele Kinder Ovo fuleragem: vem como brinde, mas definitivamente não agrada. Está sempre lá, irritando, enojando, transtornando. Os T’s se olham no espelho e não se reconhecem. Sempre tem algo demais ou de menos na imagem refletida. Há um vazio que geralmente só se preenche com a própria aceitação, para uns, ou com uma radicalização na vida, para outros. Mas nunca é tão simples assim.
Para quem se inclui no LGBTTT, o detalhezinho já começa na família. Que muitas vezes não compreende, não aceita a realidade desejada por aquela pessoa. E a vida, tão cheia de problemas, ganha ainda mais peso quando isso acontece. Pois é sem esse apoio que todas aquelas seis letrinhas vão enfrentar uma sociedade que igualmente não as aceita ou as compreende.
São muitas histórias de luta, de resistência, pela simples defesa de assumir uma parte sua que lhe é rejeitada, negada, muitas vezes com violência, seja ela moral ou física. E até quando aquelas letrinhas da sigla vão precisar lutar? Será que elas precisarão se juntar com mais algumas para acabar de vez com o inimigo chamado intolerância? E pensar que é tudo por causa de um detalhezinho... E ainda nos dizemos modernos...
E para embalar essa crônica, nada melhor que Renato Russo com a música "Meninos e Meninas"

Nenhum comentário:
Postar um comentário